
Yangos
A musicalidade da banda Yangos é fruto do entrelaçamento de estilos e gêneros, misturando pitadas jazzísticas com milongas, chamamés e chacareiras, a partir de matrizes brasileiras, argentinas e uruguaias.
A banda Yangos, composta pelos músicos César Casara, Cristiano Klein, Tomás Savaris e Rafael Scopel, criada em 2005,é uma dasjoiaspreciosas da música produzida em Caxias do Sul. Casara, pianista e roqueiro, é caxienseda safra de 1979, mas a família origina-se em municípios vizinhos, em boa mistura de raízes urbanas e rurais (colonões, segundo ele). Na adolescência, sob pressão da família para que tivesse alguma atividade laboral, opta pela música (o que não era exatamente o esperado pelos pais). Em 1996, começa a participar de diferentes bandas e cria um estúdio de gravação.
O percussionista Klein também é caxiense, safra 1986, mas a família origina-se nos Campos de Cima da Serra. O avô era músico, acordeonista, o que o leva aconviver com a música desde criança. Scopel, acordeonista, é caxiense da safra de 1984, nascido em família muito ligada à música regional e ao tradicionalismo gaúcho – ele cresceu dentro de um CTG –, embora seu pai tenha sido roqueiro na adolescência. Savaris, violonista e metaleiro, foge regra do grupo, pois nasceu em Porto Alegre em 1984. Em função da atividade profissional do pai, morou em muitas cidades. Começa a estudar música e a frequentar um CTG aos sete anos, muito por influência de um dos irmãos.
As particularidades de cada um dos quatro integrantes daYangos levam a uma configuração musical com marcas urbanas e rurais, mas sempre recorrente em certa nostalgia, dospassados ainda presente nas práticas tradicionalistas que perduram fortes em Caxias do Sul. A estética decorrente foi reforçada pela convivência com músicos uruguaios e argentinos, que os introduziam na Milonga e no Chamamé, entre outras.
Na atualidade, fruto da trajetória diversificada dos músicos, a própriaYangos classifica sua musicalidade como fruto do entrelaçamento de estilos e gêneros, misturando pitadas jazzísticas com milongas, chamamés e chacareiras, a partir de matrizes brasileiras, argentinas e uruguaias. As fusões, por outro lado, valorizam a diversidade musical brasileira, sem perder o caráter de raízes locais, que consagrou o grupo internacionalmente ao longo dos anos (Yangos, 2019, s/p).
Sua discografia registra quatro álbuns:Tangos y Milongas (2009), o primeiro disco a apresentar a expansão musical pelo Sul, entrelaçando o Novo Tango de Piazzolla e a Milonga de Lucio Yanel; Às Pampas (2013), que compõe o momento interiorano, aprofundando as raízes musicais já presentes no álbum anterior, teveprodução com Dante Ramon Ledesma; Chamamé (2017), disco que concorreu ao Grammy Latino, desponta com forte presença rítmica; Brasil Sim Senhor (2018), celebra as suas viagens pelo país, emaranhando ritmos e sonoridades dosdiferentes cantos percorridos; Power Folklore (2019) busca estabelecer o Rio Grande do Sul como marcado por um ritmo próprio; e, Entre Fronteiras (2020), em companhia de Lucio Yanel, testemunha que além do compartilhamento territorial,gaúchos e argentinosapresentam em comum, ritmos e sonoridades musicais, que os une culturalmente. E, em 2022, junto com a banda Cuscobayo, lançam o singleQuerido, a primeira música em que há letra.
De Sá cita Núñez (2017) para explicar que as redes musicais, tanto em termos estéticos como de sua cadeia de produção, são muito complexas, entre outras porque as duas instâncias podem misturar-se. Isso está bem-marcado na Yangos. Em termos estéticos, sua produção, fundamentalmente instrumental, remete ao erudito, mas incorporando elementos da música popular, seja pelos instrumentos, seja pelos ritmos e gêneros.
Já a cadeia de produção da música, que tem peso econômico significativo, ainda que de difícil quantificação em toda a sua extensão e complexidade, já levou a banda a percorre festivais e eventos musicais dos mais diversos, dos caxienses Mississipi Delta Blues Festival e o Festival Brasileiro de Música de Rua, e a realizar parcerias com a Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul. Mas o grupo também esteve no Festival Nacional do Chamamé, no Festival Internacional de Folclore de Gravataí, no Floripa Jazz Festival, no Festival do Livro e da Cultura de Medellín, na Colômbia, entre outros. A presença da banda também é recorrente em matéria jornalísticas em diferentes veículos, e em clips institucionais do Grupo RBS, como a série “De manta e cuia”.
Durante o período pandêmico, o grupo apresentou uma série de lives, disponíveis em seu canal do YouTube, para criar discussões em torno da sua produção artística e das relações contemporâneas da indústria musical. Após este período, assim como haviam dito em entrevistas para De Sá (2021), o grupo permanece no regional, explorando as capacidades artísticas e culturais da Serra Gaúcha, tocando em festivais e eventos locais e regionais, bem como participando de eventos como a Noite dos Museus, em Porto Alegre, ou o show solidário as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, ao lado de Lucio Yanel. Nas viagens pelo país, integra os projetos do SESC.
Voltando a Núñez, para este autor as novas tecnologias de gravação e distribuição alteraram as relações entre os músicos e suas plateias,aproximando-os, ao eliminar intermediários como gravadoras e lojas de discos, e facilitando seu acesso individual aos mercados globalizados. Por outro lado, a tecnologia também cria bolhas, reunindo aficionados, mas podendo criar distanciamento das pessoas e dos cotidianos culturais locais.
Para a Yangos, isso significa que a amplitude da sonoridade de suas músicas,contribuem para sua visibilidade maior do que na própria região, pela presença em festivais externos a Caxias do Sul. Como causa e consequência dessa visibilidade, a banda, em 2017, foi indicada ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras, com o disco Chamamé, como já colocado. E, em 2018, participou da programação brasileira da Copa do Mundo FIFA,na Rússia. No mesmo ano, estiveram na FIMPRO, no México e na Fiesta Nacional del Chamamé, na Argentina.
Por outro lado, tais deslocamentos por cidades e países, registrados em suas músicas e em vídeos produzidos ao longo do caminho, buscam aproximação ao território e à música do local visitado, influenciando a produção da banda. As viagens, ainda, ampliam as suas redes musicais,turísticas,territoriais, subjetiva e objetivamente, entre outras, nas parcerias com os argentinosLucio Yanel e Dante Ledesma.
Este conteúdo integra o projeto Patrimônios, lendas e marcos de Caxias do Sul, financiado pela Lei Paulo Gustavo de Caxias do Sul.
Produção, organização e Curadoria: Marivania Sartoretto
Texto produzido por: Susana Gastal e Felipe Zaltron de Sá
Revisão Texto: Paula Valduga
Foto: Divulgação Yangos
Referências
De Sá, F. Zaltron.Turismo, Território e Música: Dos Fluxos Às Redes. A mobilidade do quarteto instrumental Yangos. Dissertação, Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade, Universidade de Caxias do Sul, Brasil, 2020.
Núñez, T. O mercado musical e a cadeia produtiva da música no RS. Revista Indicadores Econômicos da FEE, v. 45, n. 2, p. 97-110, 2017. Link
Yangos. Site oficial do quarteto instrumental Yangos. 2019. Link
Yangos, Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Yangos