
Revoluções
Caxias do Sul foi palco de batalhas que impactaram em revoluções que aconteceram no Rio Grande do Sul
Desde a escola, aprendemos que a história do Rio Grande do Sul inclui revoluções que se tornaram emblemáticas. A Revolução Federalista, por exemplo, é amplamente falada, tanto em livros didáticos, quanto em produções culturais. É comum, porém, que, aqui em Caxias do Sul, exista um entendimento de que esses acontecimentos tenham acontecido longe da região, o que não é verdade. Neste texto, vamos contextualizar essa história de batalhas vivida pelo Rio Grande do Sul e posicionar Caxias do Sul dentro dela.
Começamos pela Guerra Guaranítica, que aconteceu entre 1753 e 1756. Nessa disputa, indígenas da tribo Guarani duelaram com tropas portuguesas e espanholas por discordâncias a respeito das determinações do Tratado de Madri. Esse é um dos primeiros registros de duelos no território gaúcho.
No século seguinte, mais especificamente entre os anos de 1835 e 1845, o Estado foi palco da Guerra dos Farrapos, que também é chamada de Revolução Farroupilha. A insatisfação dos estancieiros e charqueadores gaúchos (que existiam também em Caxias do Sul, nas regiões onde hoje estão os território de Criúva, Vila Seca e Vila Oliva)com os impostos cobrados pelo governo imperial motivou uma guerra que objetivava separar o Rio Grande do Sul do Brasil. As batalhas foram realizadas em vários lugares do Estado, e a então área onde hoje fica Caxias do Sul não ficou fora.
Alguns anos depois, entre 1893 a 1895, esses ideais farroupilhas foram sufocados pela Revolução Federalista, e há relatos detalhados do que aconteceu por aqui. Para entender: essa guerra aconteceu entre os maragatos, que eram contrários ao governo presidencialista da época, e os chimangos (ou Republicanos), que o defendiam. O líder estadual dos maragatos era Gumercindo Saraiva, e aqui na região, quem se destacou nas batalhas por esse lado foi o revolucionário Belizário Batista, cujo centro de operações ficava localizado na Fazenda do Raposo (onde hoje é Vila Oliva). Em São Marcos, onde havia outro núcleo, destacaram-se nomes como os de José Nicoletti Filho e Adolpho Fortunatti, vulgo Storti ou Storchi.
Os três lideraram por aqui as lutas dos maragatos, e um dos marcos das batalhas foi firmado na fria madrugada de 29 de junho de 1894, quando a Vila de Caxias recebeu uma tropa revolucionária de aproximadamente 500 homens. Os moradores acordaram com os tiros e foram surpreendidos por um ataque dividido em duas colunas. A maior delas vinha da Fazenda do Raposo e tinha Belizário como líder, enquanto a outra partia de São Marcos, com Nicoletti no comando. Houve saques a estabelecimentos e até mesmo a execução do chefe do Partido Republicano local, o tenente-coronel Miguel Antônio Dutra Netto.
Revolucionários na Av. Júlio de Castilhos, esquina com a Rua 13 de Maio, após terem deposto a Junta Governativa em 26 de novembro de 1891. Fonte: Jornal Pioneiro de 22 de fevereiro de 1958, p.9. Acervo: AHMJSA
Do outro lado, tentando conter os revolucionários, estava um contingente do 44º Corpo da Guarda Nacional, cujo comandante era Francisco Antônio Alves. Em meio ao confronto, a população abandonou as suas casas e procurou abrigo no interior. Há relatos de que existem corpos de soldados maragatos sepultados na região onde hoje fica o Estádio Alfredo Jaconi. A situação só acalmou no dia 4 de julho, quando chegaram reforços do 30º Batalhão de Infantaria e do 20º Corpo da Guarda Nacional de Mostardas. Sob o comando de Benjamin Moreira Alves, a ordem foi reestabelecida, apesar de os ânimos seguirem acirrados. Você pode saber mais acessando link aqui.
Alguns anos depois, aconteceu a Revolução de 1923, citada por Antonio Augusto Fagundes, como o último conflito entre feudos e coronelismo. Após Borges de Medeiros, que sucedeu Julio de Castilhos, tomar posse pela quinta vez no governo do Rio Grande do Sul, vencendo Assis Brasil, a oposição não aceitou a derrota. Com a alegação de fraude, os defensores de Assis Brasil iniciaram uma guerra civil que se estendeu por 10 meses. Novamente, os rebeldes maragatos, do lado de Assis Brasil, lutaram contra os chimangos, que representavam o governo.
Como haviam tido parte de suas terras retiradas pelo governo, os maragatos seguiam revoltados e dispostos a buscar vingança, e Belizário Batista mais uma vez estava entre eles. Durante a Revolução de 1923, aconteceram vários conflitos por aqui. Em um deles, cerca de 100 soldados comandados por Firmino Paim acamparam por 18 dias na região que fica entre Ana Rech e Vila Seca, seguindo posteriormente para a Fazenda do Raposo, de Belizário, onde permaneceram por mais 15 dias. Há relatos de que, no caminho até a fazenda, aconteceu um tiroteio entre defensores de Borges de Medeiros e de Assis Brasil, resultando na morte de diversos soldados. Na própria Fazenda do Raposo também aconteceram conflitos com mortes.
Conforme o padre Osmar Possamai, no dia 23 de setembro de 1923, um esquadrão comandando por Nicoletti chegou na Vila de Caxias e se alojou no Centro. O tiroteio foi intenso e, novamente, a população ouviu os tiros e saiu de casa, procurando abrigo no interior. Já no dia 3 de novembro, um grupo de defensores de Assis Brasil, com Adolfo Fortunatti à frente, entrou em Caxias e trocou tiros com as tropas inimigas.
Conflitos como esses aconteceram em diversas ocasiões e lugares durante os 10 meses da Revolução de 1923, que se encerrou 14 de dezembro. Naquela data, foi assinado o Pacto de Pedras Altas, no Castelo Assis Brasil, e Borges de Medeiros seguiu no poder. Caxias do Sul teve sua participação nessa história e, com certeza, cada fato ocorrido no território tem contribuição para a trajetória da cidade.
Assista ao documentário Escondidos
Documentário “Escondidos” (2021), Dir. Gustavo de Resende Fabião. Foto: Lidiane Soares.
Escondidos conta a história de famílias que precisaram usar de artimanhas, para preservar suas vidas e seus poucos bens, numa cidade mergulhada em um conflito no início da década de 1920. Documentário baseado em fatos reais através de relatos e imagens, onde o diretor visa resgatar algumas histórias que se passaram em plena Revolução de 1923 no RS, na Serra Gaúcha.
Este conteúdo integra o projeto Patrimônios, lendas e marcos de Caxias do Sul, financiado pela Lei Paulo Gustavo de Caxias do Sul.
Produção, organização e Curadoria: Marivania Sartoretto
Texto produzido por: Paula Valduga
Bibliográficas;
Maragatos em Caxias do Sul, de Luiz Antônio Alves. Evangraf: 2015.
ADAMI, João Spadari: História de Caxias do Sul – I tomo: 1864 – 1970. Caxias do Sul: Edições Paulinas, 1971,
MUSEU MUNICIPAL; Arquivos Históricos de Caxias do Sul; arquivos da intendência de Nossa Senhora de Santa Teresa De Caxias do Sul; Mapoteca.
Alves- Luiz Antônio - Fazenda do Raposo (Vila Oliva)- www.fuj.com.br
Giron, Bergamaschi- Loraine Slomp e Heloísa Eberle -História de Caxias do Sul- – Caxias do Sul: EDUCS, 2001.
Rizzon, Possamai -Luiz Antônio e Osmar João. – História de São Marcos -São Marcos: Ed. Dos autores, 1987.
Web
A primeira revolta Caxiense disponível em: https://codicedemarcostoffoli.blogspot.com/2016/03/revolucao-federalista-de-1893-vila-de.html acessado em 20 out de 2024.