
História como tempo presente
A memória costuma ser tratada como um complexo acervo de acontecimentos, nomes, datas, cheiros e sabores, vivenciados em algum momento anterior ao presente. Por essa razão, ela – a memória – se confunde com a percepção de passado e tal associação, de certo modo, organiza nossas vivências cotidianas.
Vejamos mais de perto.
O passado, tido como aquele tempo que se foi, é consolidado no mais íntimo de cada pessoa, mas também se mantem nos compartilhamentos dos grupos sociais. Em outros momentos históricos, cartas, fotos e objetos,salvos do esquecimentos nas brumas do tempo,nos auxiliavam a rememoraro que já fora. Tais itens, não raro vistos como singelos, eram mantidos na esfera íntima da famílias. Outros, entretanto, mais imponentes e significativos para coletividade, poderiam ser alçados à condição de patrimônio coletivo de uma determinada comunidade.
Daí que,ao longo do século XX, algumas concepçõesse tornaram caras ao campo cultural, levando a que apenas fosse considerado como Patrimônio, em maiúsculas, aqueles prédios e objetos muito antigos e magníficos. No caso dos prédios, além de registrarem um tempo passado, deveriam impor-se na paisagem, caso da Torre de Londres, da Torre Eiffele do Taj Mahal. Não faltariam outros exemplos.
Quanto aos objetos, estes deveriam ser dignos de estarem acervados em museus, galerias de arte, bibliotecas e outros lugares de memória validados pelo campo cultural. Poderíamos incluir, aqui, a gastronomia, merecendo estar abrigada nesta palavra apenas aquela culinária produzida por grandes chefs,com sofisticação, menosprezando-se os pratos da tradição familiar ou associadosa etnias não hegemônicas. Tais equivalências poderiam ser aplicadas, por exemplo, à música, colocando em um patamar as suas expressões eruditas e, rebaixadas, aquelas do popular, da prática das ruas e dos cotidianos.
Importante reforçar, que os prédios, objetos, práticas culinárias e musicais categorizadoscomo eruditos e de status, seriam aqueles associados às elites econômicas de dados momentos. A cultura produzida por outros extratos sociais, não hegemônicos, seria rotulada como artesanato (e não como arte), folclore, música popular ou como baixa gastronomia, sem status ou reconhecimento, fora das feiras livres ou mercados.
Tais concepções são reformulada ao longo da segunda metade do século XX. Naquelas décadas, emerge um novo modo de olhar a memória individual – e a memória coletiva e social, em decorrência – que passa a ser significada não mais como um acervo pronto e acabado, disponível para recuperação por inteiro a qualquer momento e, claro, remomemoração com aura de verdade. A nova mentalidade passa considerar a memória como re-memoração de acontecimentos, nomes, datas, cheiros e sabores, ou seja, como tempos que, ao serem retirados do passado e transpostos para o presente, tal se dará, sempre, em atualizações a partir de concepções e percepções atuais de quem re-visita o passado.
A memória seria o canal que tornaria o passado, ou melhor, os passados, expressos em objetos singelos ou magníficos, presentes. A presentificação se daria através de re-memoração e, na partícula ‘re’, o indicativo de que a memória seria algo que se atualiza a cada evocação, atualizando e até ressignificando um objeto, um fato, uma pessoa. Poderíamos falar sobre tais processos, poeticamente, como se [re]memórias fossem.
O passado atualizado pelas percepções e concepções do presente, permite um livre pensar sobre sua construções (e re-construções) cotidianas.Os novos aportes também levam à reposição das concepções sobre cultura, agora pela desdiferenciação entre as expressões produzidas por diferentes grupos sociais, abandonando-se as dualidades entre alta cultura e cultura popular, por exemplo. Significa, ainda, que devemos abandonar nossas distrações em relação à cultura do tempo presente, aquela produzida tanto nos espaços ainda consagrados (teatros, galerias de arte, museus, restaurantes sofisticados) mas também nas ruas, como o grafite, a roda de samba, o carnaval, a comida de rua (atualizar aqui conforme o resto da publicação)
As memórias, as histórias e as culturas – sempre no plural – produzidas no hoje, nos nossos cenários contemporâneos diferenciados ou cotidianos, também apresentam novas performances a partir da tecnologia, levando a simultaneidade de vivências, popularização de acesso e novos formatos na sua expressão e, talvez mais importante, a constituição de outros suportes de memória, que levem a constantes presentificações.
Se a memória é a forma de acesso ao passado. Se o passado agora pode se dar sem atenção à ordem cronológica, ou se este passado está amplamente presente em fotos, vídeos e músicas, acessáveis mediante dois ou três toques de tela ou de teclado, o passado deixa de ser algo dado, natural e imutável, mas que, na seletividade das lembranças, permeadas pelos novos suportes materiais de memória, pode ser construído.
Como resultado das possibilidades das tecnologias, a sensibilidade contemporânea conviverá com desmaterializações (tudo acontece na tela). O tempo das tecnologias não mais se construirá como desdobramentos cronológicos e racionais,em passado, presente e futuro. As sensibilidades, ou seja, a maneira de ser e estar no mundovivenciada por cada pessoa ou compartilhada no interior de grupos sociaisserá profundamente afetada,aqui incluindo o possível apagamento do que tratamos como passado.
Este conteúdo integra o projeto Patrimônios, lendas e marcos de Caxias do Sul, financiado pela Lei Paulo Gustavo de Caxias do Sul.
Produção, organização e Curadoria: Marivania Sartoretto
Texto produzido por: Susana Gastal
Revisão Texto: Paula Valduga
Fotos: Designed by Freepik